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O HOMO ECONOMICUS CHEGA A DAVOS     

Prof. Dr. Wagnervalter Dutra Júnior
(UNEB – DCH VI)

                                               

1. Uma mulher e uma criança estão na fila para pegar comida, frutas e água na Praça da Estação em 5 de junho de 2020 em Belo Horizonte.

Ontem, antes de esperar por mais de 8 infindáveis horas, em jejum, na recepção de uma
clínica, para realizar um exame de rotina, passei numa livraria e me deparei com um livro de título
curioso: O homem de Davos: como os bilionários devoraram o mundo (de Peter S. Goodman,
editora Alta Book, ano 2023).
Os impulsos do consumo me dominaram – curioso quão irônica é a vida – mesmo em
flagrante contradição, em relação a um livro com esse título, deixei-me levar por tais impulsos,
alimentados pela curiosidade do que abordara aquelas páginas. Comprei o livro, que me fez
companhia para amenizar aquelas horas sem comer. O título do prólogo do livro é: “Eles ditam
as regras para o resto do mundo”. Ao começar a leitura, imediatamente pensei: que bom que cedi
àquele arroubo consumista… E quão atroz é a face desse que, evoluindo do homo economicus,
subiu os Alpes Suíços.
Os frequentadores do Fórum Econômico Mundial, sediado na supramencionada cadeia
montanhosa, cuja sede fica na cidade Davos, apresentavam-se como os salvadores do mundo na
Pandemia da Covid – 19. As palavras que o autor abre seu livro são as seguintes: “Para muitos de
nós, 2020 foi um ano de prolongado tormento. Seus próprios números parecem propensos a
persistir como abreviação para morte, medo, isolamento, escolas fechadas, ameaças à subsistência
e incontáveis formas mais mundanas de miséria da pior pandemia em um século” (p. 1).
Ante o terrível contexto da desigualdade, potencializada na pandemia, o autor alerta sobre
um grupo seleto de humanos conhecidos como Homem de Davos – o termo foi cunhado pelo
cientista político Samuel Huntington para referir-se àqueles “tão enriquecidos pela globalização
e tão nativos do seu funcionamento que eram efetivamente sem nacionalidade […] seus interesses
e suas riquezas fluindo através das fronteiras (onde mora mesmo o dono da AbInbev, antiga
Ambev, e da 3G capital, causador do rombo de U$ 40 bilhões nas Americanas, Jorge Paulo Leman,
o brasileiro mais rico?), suas propriedades e seus iates espalhados pelos continentes, seu arsenal
de lobistas e de contadores cruzando jurisdições, eliminando a lealdade a qualquer nação em
particular […] Homem de Davos se tornou um termo genérico usado por jornalistas e acadêmicos
como abreviação para aqueles que ocupam a estratosfera da classe globalizada, os bilionários […] predominantemente brancos e homens […]” (p. 5).

2.Durante pandemia, governo brasileiro distribuiu renda por meio do auxílio emergencial; na foto, famílias de baixa renda recebem doações de marmita, em Curitiba.

A questão central do autor é expor esse abismo entre o discurso desses bilionários que
frequentam Davos, que durante a pandemia professavam sobre sua indispensabilidade em salvar
o mundo da peste da Covid 19, através de doações, investimento em ciência para o
desenvolvimento da vacina (é um ato meramente humanitário bradavam! O que importa aos
bilionários lucros que ela gera, não é? O que seria de nós levantar para trabalhar no dia seguinte,
diminuindo os riscos de morte pelo vírus Sars-Cov-2, sem a filantropia do meu patrão que investiu
bilhões apenas por temer por minha vida?), defesa – e dinheiro – do meio ambiente, e outras
fantasias.
Quando a verdade por trás da falácia era simples: “a classe bilionária saqueou governos
ao se esquivar de impostos, deixando as sociedades desprovidas dos recursos necessários para
combater os problemas [a pandemia]” (p. 4). Por outro lado, como um revés do cachorro a correr
atrás do próprio rabo, o Homem de Davos culpa o governo; no alerta de Goodman: “[…] apontava
para a fraqueza resultante do governo como justificativa para depender de sua generosidade” (p.
5).
Um exemplo da decorrência das ações desse Homem foi, nos EUA, a condução neoliberal
da economia com seu mantra da austeridade, que acabou levando o governo a extinguir um setor
mantido com dinheiro do contribuinte e que era responsável por monitorar as possíveis eclosões
de pandemias ao redor do mundo. Afinal o dinheiro do contribuinte pode ir para os bancos (quem
são seus donos, advinha?), ao invés da sua saúde.
O CEO da Amazon, Jeff Bezos, registrou durante a pandemia (julho de 2020), seu maior
ganho pessoal em um só dia, 13 bilhões de dólares. Mas o que pode significar essa quantia ganha
em meio ao caos pandêmico? Podemos traduzir esses números assim: equivaleu a 74,1 bilhões de
reais ao dólar da época; esse montante contabiliza mais de 67 milhões de salários mínimos do
período no Brasil – para termos uma ideia: trabalhando 40 anos ininterruptos e ganhando salário
mínimo, o que perfaz 480 salários, o valor que você consegue juntar em sua vida laboral é 528
mil reais (2020) – essa soma que Bezos ganha em um dia apenas, daria para bancar o trabalho de
mais de 140 mil pessoas por 40 anos a um salário mínimo. O trabalho (classe trabalhadora) e a
natureza suportarão até quando o peso desse mundo assim ordenado a servir exclusivamente a
essa casta? Suportaremos até quando esse estado de coisas absurdamente injusto com aqueles que
efetivamente arriscaram suas vidas nesses penosos dias? Ruma-se a todo vapor ao colapso, como
nos lembra Robert Kurz.

Fonte:  Prof. Dr. Wagnervalter Dutra Júnior (UNEB - DCH VI)  
Foto 1: Pedro Vilela/Getty    Imagem 2: Poder360  
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